Muitos ainda deverão de ter bem fresco na memória, o fracasso do Benfica durante o último terço da época transata. Pois bem, numerosas foram as críticas feitas ao trabalho de Jorge Jesus. Uns contestaram a atitude do plantel, outros invocaram a falta de experiência, e ainda houve quem acusasse o técnico encarnado de má gestão e erros metodológicos (…); contudo Jorge Jesus preferiu simplificar a situação justificando o sucedido com o tradicional argumento de que o seu plantel foi vítima de uma sobrecarga de calendarização e consequente efeito de fadiga face aos seus diretos adversários. Contudo apesar de muita tinta ter corrido nos jornais desportivos acerca disto, o facto é que durante a presente época o fracasso parece ser cada vez mais uma pura e dura cópia da realidade vivenciada pelo conjunto da luz na época anterior.
Alheio a isto tudo, o condado Port(o)calense liderado por Vítor Pereira, apesar de ser considerado frágil por muitos críticos, encaminha-se para mais uma conquista do campeonato nacional. Na minha perspetiva, o que tem falhado no conjunto da luz deve-se a um fator muito mais simples do que a fadiga invocada por Jorge Jesus. O técnico encarnado tem vindo a demonstrar notórias fragilidades táticas durante as duas últimas temporadas.
Passo a explicar:
O Benfica é uma equipa de topo, à escala Mundial, que possui um conjunto invejável de infra estruturas de apoio ao seu departamento de futebol profissional, onde se destaca um super-desenvolvido e moderno laboratório de ciência desportiva onde os jogadores encarnados são monitorizados ao segundo, onde todas as cargas e intensidades de treino são controladas meticulosamente. O Benfica-Lab possui um luxuoso leque de profissionais com meios capazes de acelerar o processo de recuperação de fadiga dos atletas através de circuitos de banho de contraste de água quente e fria, uso de calças de compressão pós jogo, recurso a tratamentos de hidroterapia, massagens localizadas, ingestão de bebidas ricas em eletrólitos, dietas pormenorizadas, entre outras (…). Face a este cenário, parece um bocado descontextualizado que Jorge Jesus se queixe de fadiga dos seus jogadores. Cenário complicado parece ser o que se vive nas equipas da 1º e 2º divisão inglesa onde as equipas e os seus jogadores são obrigados a efetuar cerca de 60-70 jogos por época e onde muitos dos encontros são disputados com menos de 48h de recuperação (caso do boxing day e época da páscoa). Tendo em conta este cenário, talvez seja altura ideal de Jorge Jesus demonstrar e assumir mais FAIR PLAY TÁTICO. Com isto quero dizer que nos grandes momentos Jesus não parece respeitar o valor tático dos seus diretos adversários (Braga, Sporting e Porto). Por muitas ocasiões, durante as duas últimas edições das competições nacionais e inclusive Liga Europa, foi possível verificar que existe uma enorme tendência do Benfica para jogar com um sistema demasiado confiante e ofensivo frente aos seus diretos opositores (4x2x4). A experiencia diz-me que num grande derby, este tipo de táticas só resultam quando a diferença de qualidade assim como a capacidade coletiva entre as duas equipas é abismal (caso do plantel na temporada 2009/2010). Ou seja, se o cenário não se verificar e se estivermos perante um confronto entre dois sistemas complexos (equipas) de grau similar, a equipa com inferioridade numérica no meio campo tende a vacilar e a demonstrar maior incapacidade para controlar o contexto do jogo. Jorge Jesus parece ainda não ter percebido que, face às realidades atuais, um meio campo constituído por Javi Garcia e um box to box como Witsel/Aimar/Carlos Martins é demasiado impotente face a um meio campo poderoso como o caso do FC Porto com o seu polvo Fernando, Moutinho e Guarín/Lucho/Belluschi, assim como um meio campo eficaz como o do SC Braga com Custódio, Hugo Viana e Mossoró/Luís Aguiar, e recentemente o renascido e motivadíssimo meio campo do Sporting de Sá Pinto constituído por Elias, Schaars e Matias Fernandez.
Na Era Jorge Jesus o conjunto da Luz apenas ganhou por duas vezes ao FC Porto num total de 9 confrontos disputados em duas competições (campeonato nacional e taça de Portugal). Um score bastante negativo face à grandeza de um clube como o Benfica. No entanto por coincidência ou não, nos dois encontros que o Benfica ganhou o conjunto da luz apresentou uma linha média constituída por 3 médios que deram replica ao conjunto da Invicta. A 20-12-09 o Benfica apresentou um meio campo constituído por Javi-Carlos Martins e Ramires e a 02-02-11 no Estádio do Dragão apresentou um meio campo surpreendente constituído por César Peixoto – Javi Garcia – Saviola que mais tarde foi rendido por Aimar.
Em relação aos encontros disputados contra o SC Braga, o conjunto da Luz ainda não conseguiu ganhar qualquer partida disputada na pedreira na Era de Jesus. Em 4 partidas o Braga levou a melhor em 3 ocasiões. O melhor que o conjunto da luz conseguiu foi um empate na corrente temporada onde curiosamente foi a única vez que apresentou um meio campo constituído por 3 médios (Javi – Witsel – Aimar).
Coincidência ou não, isso já não sei, mas o que é certo, é que o sector intermédio das equipas europeias, tem vindo assumir cada vez mais um papel preponderante e decisivo no contexto de jogo. O futebol de elite tem vivenciado um aumento significativo de complexidade, onde a interação das dimensões técnica/tática/física/emocional se tem tornado decisiva. Atualmente equipas como o Real Madrid, Man. City, Man. Utd., Barcelona, Arsenal, Chelsea, Bayern, Dortmund, Milan, Juventus (…) não abdicam em nenhum momento da temporada dos seus sectores intermédios constituídos minimamente por 3 elementos com papéis bem definidos. O sector intermédio representa uma componente decisiva e fundamental do sistema complexo em que a equipa e o seu modelo de jogo estão inseridos. Inclusive, equipas como o Barcelona, têm vindo a refortalecer esta conceção tática através de um aumento populacional na linha média com 4-5 centrocampistas em detrimento dos outros dois sectores. Pois Guardiola considera esta linha como o núcleo central, uma espécie de cérebro da equipa onde os sectores defensivos e ofensivos apenas podem ser eficazes e objetivos se o sector intermédio estiver a operacionalizar a 100% (ou seja, em superioridade).
Em 6 jogos na fase de grupos da ‘Champions League’, Jesus apresentou um meio campo com 3 centro campistas quase sempre constituídos por Javi – Witsel – Aimar, apenas por uma ocasião apresentou um meio campo constituído por 2 centrocampistas frente ao Otelul Galati (equipa mais fraca do grupo). Resultado: uma excelente prestação que permitiu ao conjunto da Luz encaixar 30 milhões de euros nesta prova, graças a competência e fair play tático demonstrado pelo seu técnico.
Ou seja, no panorama Europeu, Jesus aprendeu com erros da época anterior, e tornou-se um treinador mais humilde e com mais fair play tático. Contudo não compreendo porque não assume a mesma postura no campeonato Português, o qual tem melhorado a olhos vistos, continuando egocêntrico. Num campeonato cada vez mais competitivo, Jesus tem de pensar seriamente em ter mais fair play tático, principalmente face aos outros grandes do futebol nacional.
Contudo e apesar deste reparo, gostaria de deixar bem claro que admiro bastante o trabalho de Jorge Jesus, e inclusive penso que seja a pessoa ideal para continuar a liderar o plantel encarnado porque apesar de tudo, se bem nos recordamos, o Benfica era uma equipa vulgar, sem espirito e que não lutava intensamente pelas competições onde estava inserido.
Texto de João Pedro Sacramento, Edição Nº1
